Crônica de um fracasso anunciado: a epidemia no Rio de Janeiro
No último post falamos sobre alguns aspectos da dengue como doença, da importância da participação da coletividade em sua prevenção, do papel dos meios de comunicação no esclarecimento da população e no sentido de fazer com que medidas coerentes sejam tomadas.
De lá para cá a epidemia assumiu proporções maiores, ao que parece, e as notícias tornaram-se cada vez mais alarmantes e, infelizmente, distorcidas. Hoje a grande discussão se trava sob o foco de: “faltam pediatras“, “porque os alunos de medicina não se interessam mais pela pediatria”, “devemos ou não importar médicos de Cuba, de outros estados ou, simplesmente chamar as Forças Armadas”.
Essa foi a tônica do notiário de quinta-feira, com direito a chamada no Jornal Nacional sobre o porquê de terem diminuído as vocações pediátricas no Brasil. Vamos aos fatos:
A atenção básica à saúde, no Brasil, está montada, há cerca de 10 anos (ministro da saúde José Serra), no esquema do Programa de Saúde da Família (PSF), que tem as seguintes características: as equipes do programa são estruturadas com base em um médico generalista, uma enfermeira, uma auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde, pessoas escolhidas dentro da comunidade, treinadas para, em visitação domiciliar, detectar eventuais problemas que determinada família possa estar apresentando.
Desde a implantação do programa as entidades pediátricas, especialmente a Sociedade Brasileira de Pediatria, se manifestaram vigorosamente a favor da inclusão de pediatra na equipe, considerando que na sua formação há um treinamento específico para a detecção de problemas próprios da faixa pediátrica que outros especialistas não têm.
No entanto, sob pressão das agências financiadoras do programa (Banco Mundial), preferiu-se valorizar o salário do generalista em detrimento do pediatra que não deve ser visto como um especialista, mas sim como o clínico geral da criança e do adolescente.
Com isso, houve grande desvalorização do pediatra no mercado de trabalho, agravada pela baixíssima remuneração da consulta, que não pode competir com outras especialidades que, dentro da lógica perversa do sistema, praticam procedimentos que são remunerados à parte.
Apesar dessa situação existem, no Brasil, pediatras em número absolutamente suficiente para atender à demanda populacional, em relação semelhante, médico por habitante, à de países do primeiro mundo. Por que, então, essa crise?
No atendimento a pacientes de dengue é fundamental conhecer as características da hidratação em pediatria, visto que a desidratação é o sinal mais importante e grave da doença, causada pela diarréia e vômitos que as crianças apresentam. Mau atendimento significa desconhecimento de princípios básicos de pediatria e falta de médicos não deve ser resolvida com importação de mão de obra de fora.
O Rio de Janeiro tem cerca de 7000 pediatras, sendo mais de 1500 portadores de título de especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria. Por que eles não estão nessa batalha?
Deve-se perguntar ao governo estadual e municipal: quantas vagas foram abertas e não ocupadas porque a remuneração é indigna? Por que o salário é, em diferentes municípios, não maior do que R$700 ou R$1.000 por mês?
Por que, mesmo nessa crise, fala-se em vocações e em importação de médicos, enquanto se paga, para trabalhar em condições de guerra, R$1.000 por plantão de 24 horas, ou seja, R$42,50 por hora, remuneração inferior à maioria dos empregos não qualificados? Por que os serviços de saúde foram sucateados, por absoluta falta de investimentos?
Parece que as circunstâncias demonstraram a importância do trabalho do pediatra e o quanto ele foi desvalorizado até agora. É o momento de rever conceitos, de acreditar realmente que prevenção é mais importante, de incluir o pediatra nas equipes do PSF e remunerá-lo decentemente. Com isso serão valorizadas a infância e a adolescência, e o dinheiro público terá uma destinação mais condigna.
Ah, não sou o único a abordar o tema - recomendo a leitura do artigo Lembraram-se do pediatra (clique para ler), escrito por Fernando Barreiro, presidente da Sociedade Baiana de Pediatria (Sobape).
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