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| Nossos líderes empresariais precisam ter claro para si qual o papel que querem exercitar na sociedade |
Vivemos uma época de contradições sem paralelo. O mundo tem mais dilemas do que nunca para definir o seu futuro e muito mais gente com a responsabilidade de tomar essas decisões. Os líderes de outros tempos eram poucos, com um poder maior, e decidiam com base em um número menor de variáveis. Hoje, a riqueza e o destino da Terra estão nas mãos de milhares de pessoas - acionistas minoritários, majoritários, consumidores e eleitores.
Grande parte desse poder pulverizado é delegado aos executivos, cujos mandatos podem ser efêmeros, mas de alto impacto sobre a vida das pessoas e do planeta. Ao contrário dos líderes de ontem, que livremente pendiam para a justiça ou para a tirania, os de hoje são constantemente avaliados e premidos a tomar decisões que levem em consideração o curto e o longo prazo, os interesses das empresas e da sociedade, nem sempre coincidentes. Recentemente, o novo presidente da Federação Brasileira de Bancos, Fábio Barbosa, disse à Veja (18/4/07) que o conflito entre sustentabilidade e desenvolvimento é um falso dilema. Segundo ele, não vivemos mais numa sociedade que precisa optar pelo crescimento ou pela preservação, mas já temos condições de desfrutar de um e de outro, simultaneamente.
É bom que pessoas influentes como ele pensem e ajam dessa forma em suas empresas. Mas a pressão por gerir interesses opostos atormenta o dia-a-dia de muitos executivos. E, nesse cabo de guerra, a maximização dos resultados, infelizmente, ainda costuma ser mais forte que a preocupação com a sociedade.
Na mesma edição daquela revista, Stephen Kanitz oferece um preciso retrato dessa escolha: o atendimento telefônico das empresas, que simplesmente ignora os clientes e nos trata como um mal necessário ao negócio. Também já citei esse exemplo aqui, ressaltando que a verdadeira responsabilidade social corporativa deveria começar pelos mais básicos conceitos de educação e respeito ao público.
Como o executivo deve se preparar para exercer o seu papel com dignidade nesse universo de antagonismos? Integridade, como bem lembra o professor e filósofo Mario Sergio Cortella, é se manter único, apesar dos conflitos internos. Ele cita o caso de seu pai, que dizia aos filhos pequenos, após aprontarem alguma: "Por mim, eu não bateria em vocês. Mas, como sou pai, preciso bater."
Essa é a quebra da integridade. Dividir-se em dois. Isentar-se do poder de escolha, do livre arbítrio. Declarar que "por mim, eu não demitiria essas pessoas, mas como sou CEO, preciso demitir" não resolve o problema delas, da sociedade e da responsabilidade da empresa. No máximo, refresca a consciência de quem não está disposto a refletir muito sobre o impacto de suas decisões.
O mundo de hoje exige dos executivos, ao mesmo tempo, iniciativas rápidas, eficazes para os negócios e responsáveis com a sociedade. É difícil, sim, mas Fábio Barbosa está certo: é possível. Para isso, nossos líderes empresariais precisam ter claro para si qual é o papel que querem exercitar na sociedade, acompanhando a velocidade das mudanças e gerindo o impacto das mesmas na vida das pessoas.
William Bridges, um dos maiores especialistas em transições, aponta que, assim como nas espécies vivas, só evoluem as empresas e executivos que mudam. Não é uma apologia à inconstância e inconsistência. Ao contrário, é preciso viver integralmente cada ciclo, saber quando fechá-lo e partir para outro. Somente desta consciência virá o sucesso para o negócio com a verdadeira responsabilidade social.
Vicky Bloch é diretora da Vicky Bloch Associados